LABORATÓRIO DE REDAÇÃO
O trabalho não é uma essência atemporal do homem. Ele é uma invenção histórica e, como tal, pode ser transformado e mesmo desaparecer. (A. Simões)
Há algumas décadas, pensava-se que o progresso técnico e o aumento da capacidade de produção permitiriam que o trabalho ficasse razoavelmente fora de moda e a humanidade tivesse mais tempo para si mesma. Na verdade, o que se passa hoje é que uma parte da humanidade está se matando de tanto trabalhar, enquanto a outra parte está morrendo por falta de emprego. ( M. A. Marques)
No século 20, instituíram-se nas indústrias as linhas de montagem e, imediatamente, surgiram os críticos veementes a essa forma de produção. Desde o século 18, no início da Revolução Industrial, os trabalhadores das cidades foram engajados no trabalho mecânico de se movimentarem juntos, em ritmo igual ao da máquina. Acho que esse casamento de homem e máquina, de horários coletivos, sincrônicos, gerou algo de novo atrelado à noção de tarefa desagradável. O trabalho pesado, sujo, continua sendo aversivo. Mas a nova forma de escravidão do homem ao motor da máquina tornou mais esse trabalho rejeitável. O macacão e o colarinho branco estão hoje juntos na categoria de alienantes. Tarefa boa é a criativa, que respeita o indivíduo em seu ritmo pessoal. Cargo desejável é aquele no qual podemos impor nosso horário e nosso ritmo.
Mas isso tudo não é claro, é bem cheio de paradoxos. A mulher, por exemplo, ainda sonha em sair de casa para submeter-se a essa alienação, enquanto o homem sonha em se livrar dela, trabalhando em casa. Não importa qual é a organização social do trabalho, o homem parece sempre encontrar um jeito de declarar certas tarefas como subalternas. Em torno dessas e outras qualificações que a atividade humana recebe, a sociedade se organiza em classes, grupos, raças, conhecimentos, de tal forma que caiba a alguns uma fatia maior do desagradável. E assim se organiza o mundo...
(Anna Verônica Mautner. Folha Equilíbrio, 15.04.2004. Adaptado.)
Texto II
A erosão do trabalho
“ARBEIT, LAVORO, travail, labour, trabajo.” Não há nenhum canto do mundo que não esteja vendo o desmoronar do trabalho. A atividade que nasceu sob o signo da contradição foi, desde o primeiro momento, um ato vital, capaz de plasmar a própria produção e a reprodução da vida humana, de criar cada vez mais bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas trouxe consigo, desde os primórdios, o fardo, a marca do sofrimento, o traço da servidão, os meandros da sujeição.
Se o trabalho é um ato poético, o momento da potência e a potência da criação, ele também encontra suas origens no “tripalium”, instrumento de punição e tortura.
Se, para Weber, o trabalho fora concebido como expressão de uma ética positiva em sintonia com o nascente mundo da mercadoria e o encanto dos negócios (negação do ócio), para Marx, ao contrário, o que principiara como uma atividade vital se converteu em um não valor gerador de outro valor, o de troca. Daí sua síntese cáustica: se pudessem, todos os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!
E a sociedade da mercadoria do século 20 se consolidou como a sociedade do trabalho. Desde o início, no microcosmo familiar, fomos educados para o labor. O sem-trabalho era expressão de pária social. Mas a mesma sociedade que se moldou pela formatação do trabalho se esgotou. Ele se reduz a cada dia – e de modo avassalador. Enquanto a população mundial cresce, ele míngua. Complexifica-se, é verdade, em vários setores, como nas tecnologias da informação e em outras áreas de ponta, e resta exangue em tantos outros.
(Ricardo Luiz Coltro Antunes. Folha de S.Paulo, 01.05.2009.)
Texto III
Atestado progressista
Desde Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum, promulgada em 1891, a primeira a tratar do mundo da economia e do trabalho, os papas debruçaram-se sobre o tema. Ele entrou na lista de preocupações da Igreja Católica quando as transformações promovidas pela industrialização, entre as quais a criação de uma classe operária que vivia em condições degradantes, começaram a fornecer combustível farto à expansão das ideologias esquerdistas, ateias e anticlericais. Com a derrocada do comunismo, o Vaticano resolveu fustigar o capitalismo, antes alvo apenas periférico de seus documentos. Em meio à crise financeira que abalou os alicerces da economia mundial, Bento XVI fez conhecer na semana passada sua primeira encíclica a respeito do assunto: Caritas in Veritate (A Verdadeira Caridade), com 127 páginas.
(...) ... o atual papa reconhece o papel do lucro como motor da economia e que, nas últimas décadas, milhões de pessoas foram tiradas da pobreza e elevadas aos patamares de bem-estar da classe média. A globalização que não nos faz irmãos é elogiada pelos avanços que trouxe em seu bojo e é vista como um fato incancelável.
São palavras de Bento XVI: A exclusão do trabalho por muito tempo ou então uma prolongada dependência da assistência pública ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas relações familiares e sociais, causando enormes sofrimentos psicológicos e espirituais.
(Veja, 15.07.2009. Adaptado.)
Com base nas informações apresentadas nos textos de apoio e em outras de seu conhecimento, elabore um texto dissertativo discutindo a questão do trabalho no mundo atual, bem como as relações que com ele o homem estabelece.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
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